"Geração Z não vai responder no que se formou ou quando se formou. Vai responder como se atualiza"




Geração Z sofre com a apatia, a depressão e o excesso de responsabilidade geradas pela tecnologia

As mudanças nas formas de trabalho e a nova realidade de mercado estão relacionadas com as transformações da educação, que passou de ser retilínea, estudar e depois trabalhar, para ser cada vez mais uma educação ampliada para todos os espectros e momentos da vida.

Para Tulio Custódio, curador de conhecimento da Inesplorato, as pessoas mais jovens serão cada vez mais demandadas e vão ter suas expectativas e desafios colados com um processo contínuo de desenvolvimento que vai afetar sua vida no trabalho, suas relações pessoais e como vivem e habitam e os lugares que elas circulam.

Segundo Custódio, não podemos nomear gerações somente pela data de nascimento, mas utilizando outros elementos, como contexto político, social, o local onde estão as pessoas, o momento social que elas estão passando. E a partir daí estarão envolvidos a classe social, gênero, raça, distribuição dentro do território, seja urbano ou rural ou por região dentro do país, algum marco histórico, por exemplo o impacto que a pandemia tem sobre a formação dessa geração. “Não podemos simplificar demais. Quando fechamos tudo em caixa agimos ao contrário do que desejamos. A ideia é promover mais abertura, mais individualidade, mas liberdade. Entender as diferenças e demarcar as diferenças como algo positivo”, diz.

Para Junior Bornelli, fundador da StarSe, a geração Z não vai responder no que se formou ou quando se formou. Vai responder como se atualiza. É a geração que tem que viver o aprendizado constante.

Ao mesmo tempo que é uma geração que consegue enxergar muitas possiblidades, os exemplos incríveis de gente fazendo coisas extraordinárias ao redor do mundo, inovações acontecendo o tempo todo geram uma carga de ansiedade e ao mesmo tempo um desejo de construir algo grande, mas sem a compreensão de que pra chegar lá é preciso ter um esforço. “Tem um descasamento entre o querer muita coisa e o ter que fazer muita coisa pra atingir esse objetivo”, diz Bornelli. Segundo ele é preciso estar antenado com o que acontece com o mundo, acompanhar o noticiário todo dia, fazer treinamentos gratuitos, ler informação, buscar referências, falar com pessoas. Isso é fundamental para ser relevante nesse mercado de trabalho.

Para Custódio, a apatia gerada pelo excesso de tecnologia é um grande desafio porque ao mesmo tempo que temos a aceleração, a potencialidade e a oportunidade, temos também os excessos que acabam atravessando as barreiras desses jovens que acaba desaguando em excesso de responsabilidade e depressão, que toda essa geração está vivenciando hoje. Custódio defende que é preciso balanço. O jovem precisa saber o que faz sentido pra ele dentro desse processo. Qual o propósito, o autoconhecimento. Entender como vai se desenhar trajetórias que irão fazer sentido pra essa geração não só individualmente, mas coletivamente. Essa geração troca, compartilha e aprende junto. E isso tem um impacto muito positivo para esse desenvolvimento coletivo.

Sobre a relação da geração Z com a tecnologia, Bornelli diz que temos o mal dos jovens bens sucedidos. Isso gera desejo, angústia e ansiedade. Gera a vontade de fazer e o medo de fracassar. Essa geração vive isso profundamente. Porque a inspiração é incrível, mas a comparação é ruim. Ele recomenda que os jovens leiam as histórias dessas pessoas para aprender como essa carreira foi construída, como ela chegou lá, quais desafios ela encontrou. “Traz humanidade para o processo, tira o peso e a ansiedade que a tecnologia de fato traz. A tecnologia acelerou o mundo, deu possibilidades, mas com tudo isso trouxe essa pressão em cima dessa geração que quer logo ser um empreendedor incrível, quer ser uma startup milionária, quer ser o executivo CEO da grande empresa aos 19 anos, mas que não entende que existe um caminho a ser construído até lá”, diz ele.

Para Custódio, essa geração já nasceu com a tecnologia inserida nas suas vidas, nasceram raciocinando em 4G. Para amenizar essa pressão a novas gerações precisam lembrar que ela é um meio e não é o fim em si. Ela vai possibilitar muitas coisas, ampliar alcances, e ser um caminho para a troca, compartilhamento de conhecimento e crescimento de todos.

Bornelli fala também da importância das “soft skills”. Habilidades as pessoas aprendem, mas valores, ética e comportamentos são natos. Ter pessoas capazes de se relacionar, de encontrar soluções para os problemas, de buscar novos conhecimentos, de entender as frustrações, de serem capazes de ter empatia e respeitar quem está do lado, de respeitar as diferenças, a diversidade são fundamentais. E para ele, a tecnologia em excesso, a conexão sem a presença física, via redes sociais, via chamadas de vídeos, tira dessa geração essa capacidade de desenvolver essas habilidades socioemocionais. As empresas estão valorizando cada vez mais a capacidade das pessoas aprenderem, mais do que o que elas já sabem.

Custódio e Bornelli dizem que as empresas não estão preparadas para as novas dinâmicas e relações de trabalho.

Para Custódio, a ideia de carreira para muitas pessoas começa e se desfazer. Menos porque elas não querem estar naquela empresa e mais porque há uma grande instabilidade e insegurança do contexto do mercado e da sociedade, que faz com que as pessoas estejam ansiosas, buscando a solução que elas acham que será melhor pra ela naquele momento. Seja mudar de emprego, criar uma nova iniciativa, fazer trabalhos adicionais.

Para Bornelli, as empresas não entenderam que essa geração é mais pronta pra mudança, não tem medo de fazer essas trocas de emprego. Elas buscam novos desafios o tempo todo. Se a empresa mão está conectada com o propósito desse jovem, eles vão troca, eles vão buscar um novo desafio. “O que os líderes de empresas precisam fazer é buscar esse entendimento, entender o que está acontecendo ao redor do mundo para traduzir isso em ações que precisam ser feitas no seu negócio”, diz.

Do Valor Econômico

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